terça-feira, 26 de janeiro de 2016

ENTREVISTA: Ex-deputado Marcelo Melo fala sobre política

Agora no ninho tucano, ex-deputado e pré-candidato à sucessão em Luziânia faz fortes críticas ao prefeito do município, Cristóvão Tormin (PSD) e garante ter apoio total do governador para a disputa

Foto: Renan Accioly
“A atual safra de prefeitos do Entorno do Distrito Federal é a pior da história”

O neotucano Marcelo Melo é mais uma figura importante que o PMDB perdeu nos últimos tempos. Acolhido pelo governador Marconi Perillo (PSDB), ele se diz confortável na nova sigla. “Não precisei aparar nenhuma aresta, porque nunca fiz críticas pessoais a ninguém. Estou totalmente envolvido no projeto do partido”, assegura.

Nesta entrevista, o ex-deputado faz duras críticas ao prefeito de Luziânia, Cristóvão Tormin (PSD), contra quem deverá ter um duelo nas eleições de outubro. Ambos são de partidos da base marconista no Estado. Mas, questionado se hoje ele é 100% oposicionista em relação ao prefeito, Melo é categórico. “Não 100%, mas 200%”, diz ele, que também faz uma avaliação da conjuntura estadual e nacional e afirma não acreditar no impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Euler de França Belém — Há em curso uma crise nacional grave. Se o sr. for eleito prefeito de Luziânia, vai pegá-la com todos os seus efeitos. Onde vai desaguar este momento turbulento? E, em sua opinião, a presidente Dilma Rousseff (PT) continua?
A minha impressão é de que o momento do impeachment passou e perdeu força. Muito por conta da atuação do governo, ao mostrar os problemas do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ou seja, passou-se para a opinião pública o recado: “Olha quem quer me tirar; alguém pior do que eu”. E isso colou diante das pessoas e fez a sociedade organizada se voltar contra a ideia do impe­dimento. Tanto que a ABI [Associa­ção Brasileira de Imprensa], CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] e a OAB [Ordem dos Ad­vo­gados do Brasil], e outras várias ins­tituições importantes, se posicionaram contra o impeachment. Essa foi a grande válvula de escape de Dilma.

O lado ruim disso é que ela vai continuar sangrando e, também, sangrando todo o País. O que está causando essa crise brasileira, em meu entendimento, é a falta de credibilidade que o País passou a ter hoje no contexto internacional. Tudo que o Brasil conseguiu fazer para buscar este respeito na comunidade econômica internacional perdeu-se em um ano. Teremos de levar 20 anos para conquistarmos novamente a confiança do investidor. Será difícil sair o impeachment de Dilma e quem vai pagar o pato seremos todos nós.

A crise é grande e atinge todos os estágios da administração pública. As prefeituras, que já vinham tendo muita dificuldade, por conta de o governo federal concentrar a maior parte da arrecadação, estão vendo essa dificuldade se agravando. O quadro não é promissor. Quem coloca o nome para concorrer a prefeito não deve estar bem da cabeça — talvez seja o meu caso. Mas a vida é feita de desafios, e são nas horas difíceis que se mostra capacidade e competência. Administrar com muito dinheiro todo mundo faz.

Euler de França Belém — O sr. não está mais no PMDB, mas conhece como poucos o partido. Neste conflito entre o vice-presidente Michel Temer [presidente nacional da sigla] e Renan Calheiros [senador por Alagoas e presidente do Senado], haverá vencedores?
Tenho acompanhado muitas conversas de bastidores em Brasília e a ideia que se tem é de que essa briga está sendo fomentada por apoiadores de um ou de outro. Só que ela não interessa a ninguém de bom senso. Pela experiência que Temer tem, e da mesma forma Renan, esta briga não interessa a nenhum deles. Portanto, pode ter certeza de que já tem muito bombeiro em ação. Não acredito em qualquer divisão oficial, pelo menos dentro do PMDB. Acho que vão se acertar, pois cada um tem o seu interesse: Michel Temer quer terminar bem o seu mandato de vice e continuar presidente do PMDB. Já Renan, a partir deste momento, se preocupa em terminar seu mandato como presidente do Senado, que corre risco, e também cuidar da reeleição de seu filho [Renan Filho, governador] em Alagoas. Portanto, são interesses que não combinam com briga. Combinam com acordos.

Euler de França Belém — Por que o sr. deixou o PMDB?
Eu gosto de uma frase que o presidente JK [Juscelino Kubitschek] dizia, para ressaltar que é possível mudar opinião; o que não podemos é conviver com o erro. Já dei entrevistas aqui, em que disse que o PMDB não tinha projeto de futuro, que parecia um partido com olho na nuca, que só se preocupava em olhar para trás. Hoje a geração que está aí, a das redes sociais, quer um projeto de futuro. Eu entendi que não tinha um projeto de futuro dentro do PMDB. Não vou aqui fazer críticas a ninguém dentro do partido, que é um lugar em que tenho grandes amigos, um partido em que construí minha vida de militante. Tenho respeito por muitas pessoas na sigla. Mas ela passou a não ser aquilo que eu sonhava como político. Então resolvi aceitar o convite do governador Marconi Perillo e do deputado federal Célio Silveira (PSDB). Acabei me surpreendendo muito com a receptividade que tive, tanto na cúpula quanto na base em Luziânia e no Entorno do Distrito Federal. É algo que coroa o jeito com que sempre fiz política, de forma sempre posicionada, mas também muito ética. Na Assembleia Legislativa, eu combatia o governo de maneira séria e responsável, sempre respeitoso com as pessoas, principalmente. Não entro em vida particular de ninguém, não bato de forma pessoal. Isso fez com que eu não tivesse de aparar arestas na nova casa. Estou me sentindo muito bem com esta atitude que tomei e nem mesmo dos antigos companheiros eu tive críticas.

Euler de França Belém — O PMDB perde para o PSDB há cinco eleições para governador. Não fez autocrítica nem se renovou. Nessas cinco eleições, teve apenas dois candidatos, sendo que em três foi o mesmo candidato [Iris Rezende] que está na política há 60 anos. Agora se percebe que essa pessoa está de novo impedindo a renovação do PMDB, a se dar por meio do jovem deputado federal Daniel Vilela. O que é isso? Iris não tem um projeto partidário, mas, sim, pessoal?
O que eu pude perceber de Iris — lembrando sempre de que fui seu vice nas eleições de 2010, —, é que faz o partido ter um projeto muito personalista. Isso fez com que ao longo do tempo o partido fosse perdendo lideranças importantíssimas. Se tomarmos atualmente os principais partidos de Goiás, veremos grandes nomes que já foram do PMDB. Não se cresce nada debaixo da árvore frondosa de Iris. Pudemos ver isso novamente na pré-campanha passada e isso faz com que, às vezes, a gente se sinta desestimulado em construir uma trajetória dentro do PMDB. Eu estive nos momentos históricos da sigla, enfrentamos aquela verdadeira avalanche que foi 1998, com a derrota de Iris, e enfrentamos uma Assembleia em que pouquíssimos deputados estaduais se posicionaram lealmente. Eu fui um deles, mostrando coragem, força e determinação, porém isso não tem o menor valor dentro do partido.

Chega o momento de entender que é preciso buscar outros ares para seu trabalho. Hoje, na região do Entorno, é preciso criar novamente essa força regional para que ela seja ouvida nas decisões em nível estadual. Essa força foi perdida principalmente por essa atual safra de prefeitos que, infelizmente, parece ser a pior da história da região. Por isso tenho esse projeto de não só ser prefeito de Luziânia, mas de criar novamente essa aliança regional para que possamos atuar em conjunto.

Euler de França Belém — O PMDB está fragilizado no Entorno?
Há muito tempo o PMDB vem se fragilizando no Entorno, perdendo lideranças, o que agora culminou com minha saída e a do Padre Getúlio [ex-prefeito de Santo Antônio do Descoberto, hoje no PSB]. O partido está desestruturado na Cidade Oci­dental, totalmente desestruturado em Valparaíso. Há certa força ainda em Novo Gama, mas partindo para a desestruturação. Em Cristalina o partido acabou há muito tempo. O PMDB está sobrevivendo só em Formosa, mas pela liderança pessoal de Ernesto Roller [deputado estadual]. Como partido, está praticamente desaparecendo na região por causa da falta de propostas, da falta em oferecer expectativa a seus militantes.

Elder Dias — O que leva a existir tanta dificuldade para renovação no PMDB? Qual o problema? Os iristas não têm uma dimensão partidária, enxergam apenas o apego à personalidade de uma pessoa?
A maioria das lideranças que tinham voto no PMDB está saindo. Hoje, dos parlamentares do partido, boa parte não é de iristas. Esses dias, vi uma foto de uma reunião da Fundação Ulysses Guimarães [instituição do PMDB criada para desenvolver projetos de pesquisa aplicada, doutrinação programática e educação política]; se somarmos os votos das pessoas que estavam na sala, não daria para eleger nem síndico de prédio. Essa é a realidade: as pessoas que estavam ali em cargos diretivos de uma instituição im­por­tante — criada para fomentar as discussões internas do partido, fa­zer seminários, pesquisas, en­fim, orientar a atuação dos diretórios municipais —, esses chamados “iristas”, estão ocupando esses poucos cargos que restam.

Cezar Santos — Nesse contexto, os iristas brigam para não perder o diretório estadual?
Sim, por isso há essa briga para não perder o controle do diretório estadual. Hoje lá tem mais de 40 pessoas em cabides de emprego, onerando o partido. Eles não querem perder o que resta, são pessoas que estão aí na imprensa, tentando manter a imagem de apoio, de atuação, o que é uma farsa.

Elder Dias — Pode acontecer um racha no PMDB goiano agora? Parece que o pessoal do prefeito Maguito Vilela não vai abrir mão de disputar o diretório, o que não ocorreu no caso de Júnior Friboi, de Henrique Meirelles e de Vanderlan Cardoso, que iriam disputar o governo. O sr. diria que agora a coisa está mais séria?
Falo como adversário que sou agora do PMDB, porque hoje estou integrado e dentro do projeto do PSDB e com o governador Marconi Perillo, comprometido com nossa região. Dentro desse contexto, entendo que pode acontecer agora esse racha que vem sendo ensaiado no PMDB há muito tempo e, aí, o partido perderia lideranças importantíssimas. Se hoje perder pessoas do quilate de Daniel Vilela, de Maguito e de outros deputados que estão acompanhando Daniel, isso vai significar fechar a tampa do caixão do partido. Então Iris vai ficar conhecido na história como “o coveiro do PMDB”. Não é bom para ninguém carregar isso em sua biografia. Se perder pessoas do quilate de Daniel Vilela, de Maguito e de outros deputados, isso vai significar fechar a tampa do caixão do PMDB e iris será o coveiro” 

Elder Dias — Não há como esse grupo derrubar Iris na disputa pelo diretório?
Façamos uma radiografia do Estado. A maioria dos diretórios do PMDB em Goiás vem sendo renovada sempre com as mesmas pessoas no comando. Gente que hoje não milita na política, pessoas de idade avançada — não que eu tenha crítica a pessoas de idade avançada — que em sua maioria se acha dona do diretório, algo como “o diretório é meu, os livros e as atas, as fichas de filiação do partido ficam na minha casa”. Gente que se intitula dona do partido. Não houve preocupação de renovação dos diretórios municipais. Isso leva à continuação da influência de Iris Rezende, porque os que comandam os diretórios municipais são pessoas da chamada “velha guarda” do PMDB. E são essas pessoas que definirão a eleição do diretório regional. O temor é de que essa velha prática continue prevalecendo, não sei. Talvez o deputado Daniel Vilela tenha tido o cuidado de fazer algumas renovações.

De qualquer forma, vejo lideranças do partido se manifestando contrárias a essa situação atual. Li, esses dias, uma nota de Gilmar Alves [ex-prefeito de Quirinópolis], posicionando-se formalmente contrário a esse tipo de coisa, falando da incoerência de Nailton Oliveira [ex-prefeito de Bom Jardim de Goiás], de falar que um deputado não pode ser presidente de um diretório regional, quando eles mesmos colocaram e bancaram como presidente do diretório o então deputado estadual Samuel Belchior. É total incoerência, uma frase oportunista.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. lastima a atual safra de prefeitos do Entorno do DF. Sabe-se que a região sofre muitos problemas estruturais. Mas o que precisa ser feito para melhorar não depende apenas dos prefeitos, sendo necessária a intervenção do Estado e da União. Qual a real situação dessa região hoje?
O Entorno vem vivendo de esperança há muitos anos. Quando foi criada a Ride [Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno], isso parecia um instrumento fantástico na época. Iris Rezende e José Roberto Arruda [ex-governador do Distrito Federal, cassado em 2010] eram senadores e a Ride nos deu a esperança que ser uma força indutora de desenvolvimento na região.

Mas a Ride sempre ficou no papel. Quando assumi como deputado federal, o orçamento da Ride para atender 21 municípios era de R$ 380 mil. Não havia por parte dos deputados da região o entendimento de fazer com que as emendas fossem direcionadas para o Ministério da Integração Nacional e, aí então, alavancar a Ride. Com dois anos de meu mandato, o orçamento da Ride passou para R$ 62 milhões, porque eu direcionei a ela todas as minhas emendas de cota dos deputados, mais as extras, de bancada. Outros deputados assim o fizeram. Mas esse trabalho foi interrompido.

Em toda mudança de governo vem a conversa de os governadores se unirem para resolver os problemas do Entorno. Espero que isso aconteça um dia. (enfático) Porque cobrar hoje só do Estado de Goiás, ou só das prefeituras da região, é brincar com a inteligência das pessoas; não dá. Até porque, se for analisar a questão conjuntural do Entorno, grande parte dos nossos problemas é causada por Brasília. A imprensa de Brasília às vezes quer imputar ao Entorno os problemas da cidade, mas é o contrário. Por exemplo, todo o lixo, toda a poluição de lá, percebe-se que isso vai para os rios e ribeirões do Entorno. Se nossas águas são poluídas, essa poluição vem de Brasília. E quem abastece Brasília com água é o Entorno.

Por outro lado, a segurança de Brasília é muito melhor do que a nossa; então, os marginais da periferia de Brasília vão roubar no Entor­no. Há uma série de coisas em que nós somos prejudicados e isso não fica claro na cabeça dos governantes. O Distrito Federal não faz favor algum quando fala em ajudar o Entorno, é a obrigação. Mas o governo federal também tem de ter sua parcela de responsabilidade.

Cezar Santos — Lembro que governos do Distrito Federal costumavam fazer parcerias com prefeituras goianas. E hoje, quais são os problemas mais urgentes do Entorno do DF?
Os grandes problemas nossos, hoje, começam pelo desemprego. Há muito tempo Goiás tem o olhar voltado para a industrialização de Anápolis; precisamos fazer com isso se volte para o Entorno também. É importante que tenhamos força política para fazer isso.

A questão do transporte até hoje se desenvolve como se fosse uma torre de Babel, onde se fala várias línguas. Misturam-se o transporte municipal, de competência dos municípios; o transporte estadual, que vai até na divisa das unidades federativas e é de competência do Estado de Goiás; e a partir dali o serviço é do Distrito Federal. A ANTT [Agência Nacional de Transportes Terrestres] nunca tomou para si a responsabilidade de resolver esse problema. Quando deputado, fui dezenas de vezes à ANTT. Desde 1990, não há licitação para o transporte público do Entorno, tudo vem sendo feito passando por cima de tudo. O que acontece hoje na região é que nenhuma das empresas de transporte instaladas está regularizada. Nenhuma. Depois da falência da Viação Anapolina (Vian), ocuparam seu lugar a G20, a Catedral e outras, mas não há um regramento, está tudo sendo feito como tapa-buracos. Então, o governo federal está fugindo de suas responsabilidades.

Cezar Santos — O Entorno continua sendo a “região do nem”, como se dizia — nem de Goiás, nem das prefeituras, nem da União?
Continua sendo a “região do nem”, ninguém o assume. O governo de Goiás tem feito investimentos na região; criou o sistema de IMLs (institutos médicos legais), o que não havia, embora já esteja bastante defasado. Tem investido na construção de escolas, investiu alguma coisa na infraestrutura, mas é tudo muito aquém do que se necessita. O fato é que o governo federal tem fugido desse debate. É preciso que ele assuma esse debate.

Cezar Santos — Aliás, o governo federal foge de todo e qualquer debate quando se trata de administrar de verdade?
Foge de tudo, é verdade. Voltando à questão dos problemas do Entorno: com a falta de emprego, essa população que se amontoou na região começa a viver a insegurança, a violência, a falta de perspectiva. E temos uma defasagem muito grande de policiais na região. A par disso, faltam políticas de inserção da juventude; isso não existe isso no Entorno.

Para agravar muito mais esse quadro, vem a questão da saúde, hoje gravíssima. Já houve projetos de construção de hospitais regionais no Entorno, que poderiam aliviar os municípios, as prefeituras. Isso tem de voltar a ser considerado, se­não vai ficar um cenário inviável. Até há pouco tempo, Brasília conseguia, de certa forma, absorver essa demanda do Entorno, mas hoje, por incrível que pareça, a saúde de Brasília conseguiu ficar pior que a nossa. Ficou pior (en­fático), está um caos a saúde em Bra­sília. O Hospital de Base, que era referência, recebendo gente do Brasil inteiro para se tratar lá, sim­plesmente acabou, não faz mais nada. Lá chegavam am­bu­lân­cias da Bahia, do Tocantins, de Goiás, do Mato Grosso. Hoje, es­se povo não vem mais para Bra­sí­lia, porque sabe que não vai ter a­tendimento. Por mais curioso que pareça, já tem gente de Bra­sí­lia buscando assistência no En­tor­no, que já é deficitário. Isso é pa­ra vocês verem a que ponto che­gou a situação na capital federal.

Frederico Vitor — Muitos parlamentares tentaram uma extensão do Fundo Constitucional do Distrito Federal, para que parcela dele fosse destinada ao Entorno do DF. Entretanto, parece que esse projeto nunca sai do papel. Esse seria um caminho para resolução dos problemas da região?
É preciso ser prático. Quando eu era deputado, essa discussão foi levantada no Congresso. Mas tirar algo de alguém é muito difícil, por isso tudo já começou errado. Não se poderia falar que iriam tirar de Brasília para aplicar no Entorno; precisavam falar, isso sim, em aumentar para Brasília e, então, isso ser repassado ao Entorno. Porque, se alguém falar que vai ter dinheiro retirado de seu bolso, vai ficar uma fera. Isso é com qualquer um de nós. Também ocorre o mesmo com os entes federados. Se falassem que vão tirar 1 real que seja de Goiás, o governador iria aceitar? Por isso, a discussão começou errada.

Brasília hoje, a gente sabe, mal tem dinheiro para custear as despesas básicas — saúde, segurança e educação. O governo federal banca muita coisa com esse fundo — manutenção de segurança das embaixadas, por exemplo —, que foi oficializado no governo de Joaquim Roriz [ex-governador do Distrito Federal], quando o presidente era Fernan­do Henrique Cardoso. Antes, dependia de todo mês ter de pedir. Criaram o fundo específico, mas hoje já existe um déficit, os recursos que estão chegando não dão mais para custear. Como então pedir para tirar mais ainda?

Elder Dias — Então, qual a saída?
Tem de se falar em aumentar, destinando “x” para os municípios do Entorno. Mas a preocupação que eu tenho é de ver todo dia um deputado requerendo mais um município para a Ride. E já aumentaram bastante. Se já ti­nha pouco para dividir para muitos, agora ficou absurdo. Já ti­nham muitos, acho que em torno de 23, e ampliaram. Eu sempre fui contra aumentar esse número.
“Estou no projeto do PSDB de corpo e alma”

Elder Dias — Mas esses municípios não sofrem a influência de Brasília? É só populismo?
Só populismo. Qual influência sofre Goianésia em relação ao Entorno? Ou Pirenópolis? Este sofre influência benéfica, com o turismo. De cada dez turistas de Pirenópolis, sete são de Brasília.

Cezar Santos — E sobre o Estado do Planalto, o sr. tem qual posição?
Sou favorável, mas por enquanto é uma utopia. Como criar entes federados quando não se consegue nem mesmo novos municípios? Fui deputado desde 1999, era presidente da Comissão de Constituição de Novos Municípios, mas nunca votamos nada. Até hoje continua assim, porque não existe uma lei federal para isso. O projeto foi engavetado pelo governo federal, porque, no entendimento deles, gera mais despesas à União.

De qualquer forma, sou amplamente favorável a que Brasília fique apenas com uma região administrativa. Seria um quadrado, como hoje, mas bem menor. É assim com Bue­nos Aires e com Washington [capital dos EUA]. Neste momento, a ideia do Estado do Planalto não vai prosperar, precisamos ter o pé no chão.

Elder Dias — Em Luziânia há o Jardim Ingá, um distrito que é outra cidade dentro do município. Uma cidade à parte, outra cidade do Entorno, mas dentro de Luziânia. Que posição o sr. teria em relação à emancipação do Jardim Ingá?
Quando eu era deputado estadual em primeiro mandato, era contrário à emancipação do Ingá. Com o passar do tempo, vendo a consolidação do distrito — e como deputado federal trabalhei bastante para isso, levei a primeira agência bancária para lá, quando já moravam mais de 70 mil pessoas. Foi a agência de número 5.000 do Banco do Brasil, num processo que começou quando Maguito Vilela era vice-presidente da instituição e foi concluído com Ricardo Flores à frente do processo. Grande parte das minhas emendas se destinava ao Jardim Ingá, porque eu entendia que seria necessário primeiro preparar o futuro município para essa emancipação. Assim evitaríamos que houvesse situações como a de Gameleira, Água Boa ou a de Anhanguera [municípios goianos com pequena população], que foram emancipados no passado de forma irresponsável.

Como deputado federal, também fiz três projetos de leis que estão apensados no que está em trâmite no Congresso e que criam condições para novos municípios, em relação a vários fatores — número de habitantes, situação econômica, construções etc. Uma discussão que já está no Senado, bem adiantada.

Elder Dias — Seria uma espécie de regulamentação da emancipação?
Exato. É preciso que o novo município tenha condições de caminhar com as próprias pernas. Voltando ao Jardim Ingá, que, se fosse emancipado hoje, estaria entre as 15 maiores cidades do Estado. Hoje já há lá um bom comércio e algumas indústrias que poderiam manter o município, de alguma forma. Chegou a hora de, assim que tiver os mecanismos, nos posicionarmos de forma totalmente favorável à emancipação do Jardim Ingá.

Algumas pessoas me questionam se esse posicionamento não geraria reação negativa da população da Luziânia tradicional. Eu respondo que não, que agradaria aos dois lados. Hoje já existe essa conscientização, porque Luziânia ficaria mais enxuta e fácil de ser administrada, além de o Ingá ter a oportunidade de obter recursos orçamentários próprios e se alavancar.

Fotos: Renan Accioly

Elder Dias — São ambientes bem diferentes…
Bem diferentes. O Jardim Ingá foi criado em meio ao boom imobiliário da década de 70, quando Brasília já dava sinais de esgotamento habitacional. Mas Luziânia cometeu um erro gravíssimo naquela época, que foi não exigir a contrapartida em termos de infraestrutura. Naquele tempo, o sujeito pegava uma patrola, fazia ruas e aquilo já era o loteamento. Então, a família se mudava para lá e começava a exigir escola, iluminação, telefone, água, segurança, transporte, tudo isso do poder público. Quando enfim deram conta do problema, já tinham 700 mil lotes em Luziânia. Isso fez com que a cidade sofresse toda aquela explosão demográfica sem ter estrutura nenhuma. Grande parte de nossos problemas hoje é oriunda desse descuido inicial.

Cezar Santos — Quantos habitantes tem Luziânia hoje?
Mais de 200 mil. Desses, 90 mil só no Jardim Ingá. Mas veja isto: Padre Bernardo à parte — já que é um caso mais antigo —, se não tivessem sido emancipados os municípios de Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama, Valparaíso e Cidade Ocidental, Luziânia teria perto de 1 milhão de habitantes. Imaginem, então, como seria administrar isso tudo, ou pelo menos Águas Lindas? Como, então, se posicionar contra a emancipação? Então, temos de dizer com toda a clareza que somos favoráveis à emancipação do Jardim Ingá. Já demos prova disso ao encabeçar no Congresso movimentos que discutam essa criação de novos municípios.

Cezar Santos — Sua candidatura é pacífica dentro da base governista?
Primeiramente, fui convidado pelo governador para o partido. Creio que seja um indicativo de que eu teria toda a facilidade para transitar nesse sentido. Vejo que posso ter alguma resistência, na base, apenas do PSD, que é o partido do prefeito. Mas são projetos conflitantes: sou candidato do PSDB e vou enfrentar um prefeito que, embora seja da base, não é do partido do governador.

Cezar Santos — E um prefeito que vem sofrendo sérias críticas da população.
Ele não transmite confiança ao próprio governador, embora Marco­ni nunca tenha me dito isso. As posições dele [Cristóvão Tormin] são dú­bias, enquanto as minhas sempre fo­ram claras. Como oposicionista, sempre fiz meu papel de fato e de direito. Todos sabem minhas posições; quando as assumo, tenho lado. Nun­ca aprendi a fazer nada pela metade. Hoje estou no PSDB de corpo e alma com o projeto do partido. Ponto. O governador sabe que não tenho duas palavras, apenas uma.

Elder Dias — Hoje, então, o sr. é 100% oposição ao prefeito Cristóvão Tormin?
Duzentos por cento.

Elder Dias — Não existe essa de base marconista em Luziânia?
Não, ficou muito clara a divisão. O próprio deputado Diego Sorgatto (Rede), que é primo de Cristóvão, já está em rota de colisão e inclusive já saiu do PSD. Isso é um indicativo de que não está se sentindo confortável. Da mesma forma, nosso grande líder regional, o deputado federal Célio Silveira (PSDB), jamais apoiaria Cristóvão, por conhecer suas práticas políticas.

Cezar Santos — Quais são suas bandeiras para a campanha? De que Luziânia está mais carente?
Primeiramente, é preciso resgatar a credibilidade do cargo de prefeito na cidade. O que mais me assusta em Luziânia é ver que a população perdeu o respeito por seu governante. Dentro de um questionário que aplicamos no município, a reação a uma pergunta em específico me deixou muito assustado: “Você confia na palavra do prefeito?”. Nada menos do que 82% disseram “não”. Isso é muito ruim, não só para a imagem dele, mas para toda a classe política. A imagem que se passa é de um mentiroso. Portanto, minha primeira grande bandeira é retomar a credibilidade do cargo.

Em segundo lugar, trabalhar com a verdade e com a realidade do município, fazendo compromissos que possam ser cumpridos. Cristóvão Tormin fez muita promessa mirabolante e isso é ruim, porque depois cai em um descrédito total. Estou tendo muito cuidado nessa fase de pré-campanha, ao escutar as pessoas, porque quero passar a elas a certeza de que não serão ludibriadas novamente.

Mesmo assim, pelas informações que tenho colhido de pessoas da Prefeitura não teremos tarefa fácil no ano que vem. Por exemplo, Cristó­vão construiu uma UPA (unidade de pronto atendimento) e está vendo nela a solução de todas as mazelas da saúde de Luziânia. Tanto é que a partir de fevereiro vai fechar o hospital regional — que faz um papel razoável, apesar de todas as deficiências — e vai transferir grande parte dos atendimentos para essa UPA e para o hospital regional do Ingá, que também já não dá conta do que tem lá. Ora, é uma loucura, porque uma UPA é basicamente um pronto-socorro, onde não há internações nem cirurgias. Mas estou querendo assumir sabendo disso, não vou poder depois ficar me lamentando.

Euler de França Belém — O sr. tem ideia da dívida da Prefeitura de Luziânia hoje?
Ainda não. Mas o que sei é que ele privilegia o comércio de fora em suas compras, mas, nas poucas que faz no município, há empresas que estão desde agosto do ano passado sem receber. É um prejuízo enorme para o comércio local.

Para ter ideia, Cristóvão Tormin iria realizar uma licitação para comprar kits escolares para os 24 mil alunos da rede pública municipal, no fim do ano passado. Quando os empresários locais tiveram acesso aos preços de referência do edital, se revoltaram e contrataram um advogado. Apresentaram orçamentos das papelarias da cidade e do orçamento que previa gastos de R$ 3,9 milhões; lá em Luziânia, o mesmo lote sairia por R$ 1,7 milhão. Isso foi comprovado com notas fiscais. A Justiça, então, determinou a suspensão de todo o processo licitatório.

Elder Dias — Isso acaba por jogar desconfiança em todas as licitações.
De fato, são coisas gritantes. Mas, como eu disse, estou sabendo desse quadro e, assumindo, vou ter de tentar resolver. Não vou poder reclamar amanhã, ao contrário de Rodrigo Rollemberg [PSB, governador do Distrito Federal]. Sou amigo dele e já lhe falei: vejo que ele está cometendo um grande erro, ao passar esse tempo todo de sua gestão procurando culpar a gestão anterior. Isso pode ocorrer no início do mandato, para passar uma radiografia do governo.

Marcos Nunes Carreiro — Quantos servidores tem a Prefeitura de Luziânia?
Quase 5 mil efetivos. Não sei o número de comissionados, estamos fa­zendo essa radiografia ainda. O que posso dizer é que o prefeito gasta, com um terço dos comissionados que o ex-prefeito Célio Silveira tinha, um valor maior do que este pagava.

Euler de França Belém — Qual a razão da derrota de seu grupo no comando da Câmara de Luziânia?
Não houve um trabalho do presidente que elegemos no sentido de fazer seu sucessor. Foi um vacilo, nesse sentido. E faltou um pouco de articulação de nosso lado. Além disso, Cristóvão se municiou bastante desta vez, porque havia perdido a anterior.

Euler de França Belém — E como se posiciona Joaquim Roriz?
Eu já recebi declaração oficial de apoio de sua filha, Liliane Roriz [PRTB, deputada distrital]. Ela esteve com Cristóvão, participou de caminhadas e carreatas, mas é mais uma pessoa desencantada com ele. Assim como eu — afinal, também vo­tei nele e pedi votos. Tenho certeza de que também terei apoio do ex-governador Roriz. Torço para que ele tenha saúde para nos ajudar, mas apenas uma declaração dele, com certeza, já ajudará bastante.

Euler de França Belém — E como está o PMDB de Luziânia, depois de sua saída?
Ainda indefinido. Fizeram eleição do diretório recentemente e vou conversar com a diretoria eleita. Tenho bom relacionamento com todos lá e gostaria de ter o partido em nossa coligação, isso não está descartado. O PMDB tem uma história no município que tem de ser respeitada.
Pré-candidato a prefeito de Luziânia, pelo PSDB, Marcelo Melo: “Preciso resgatar a credibilidade do cargo na cidade” | Foto: Renan Accioly

Euler de França Belém — O que o sr. espera que o governador Rodrigo Rollemberg faça pelo Entorno do DF?
Eu espero que, quando conseguir pôr a casa em ordem, ele faça uma boa proposta de trabalho. Rollemberg tem uma ligação grande com a região, tem fazenda em Luziânia há 30 anos. Eu o conheci em minha loja de material de construção, era meu cliente, nossa amizade é antiga. Espero que ele possa retomar estas ações pontuais do GDF [Governo do Distrito Federal] nos municípios do Entorno. Joaquim Roriz fazia isso muito; eram grandes mutirões em que levava o maquinário da Novacap [Companhia Urbaniza­dora da Nova Capital, empresa estatal do Distrito Federal], fazia limpezas e operações tapa-buracos, arrumávamos a cidade. Era algo fantástico. Em alguns momentos, ele chegou a assumir até a parte do pessoal da Saúde do Entorno. Ele pagava os funcionários e Goiás bancava medicamentos e infraestrutura. Nunca a saúde funcionou tão bem lá como naquela época. Então, temos de buscar isso de volta, essa parcela de responsabilidade de Brasília.

Frederico Vitor — A Força Nacional de Segurança Pública esteve em Luziânia durante algum tempo. Pode-se dizer que houve um ganho na qualidade de segurança na região?
Sou favorável à presença da Força, mas deveria ser algo definitivo e não de forma esporádica. Com ela na cidade, a criminalidade reduz; basta ela sair e a criminalidade dobra. Fica esse pingue-pongue que não é bom. O bandido tinha de ter a certeza de sempre haver gente “fungando no cangote” dele. Assim ele reflui. Quando a segurança está lá, fica em casa, mas quando a Força sai, volta com gosto. É o que tem acontecido agora. Por isso, precisava ser algo definitivo.

Euler de França Belém — Quase todos os assaltos violentos e com armas pesadas em Goiás são elaborados no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Eles fazem um “investimento”: roubam para comprar droga, ou para pagar traficantes. Têm armas pesadas, e nossos soldados com revólver.
Justamente. Agora recentemente, em São Miguel do Araguaia, vimos isto: os policiais com [revólver] 38, outros com fuzis e ainda metralhadoras, daquelas que perfuram até blindagem. Como que o PM vai encará-los?

Euler de França Belém — Há escolas militares em Luziânia?
Serão implantadas duas, embora tenhamos notícias de que o prefeito é contra. Dizem que foi pressionado por donos de escolas particulares e que está contra. Mas são informações extraoficiais. Eu sou completamente favorável. Se colocar uma escola militar no Jardim Ingá, por exemplo, tiraremos imediatamente mil crianças das ruas. O projeto é para ter duas. Deus ajude que tenhamos.

Euler de França Belém — Qual a vocação econômica do Entorno do DF? Cristalina tem uma produção agrícola alta e de qualidade, com boa tecnologia.
É algo muito segmentado. Por exemplo, Cristalina, tem uma produção de primeiro mundo. Parte de Luziânia, de Formosa e mesmo de Padre Bernardo tem essa vocação agrícola ou, melhor dizendo, agropecuária. Temos agroindústrias boas na região, tanto é que Luziânia aparece em 4º lugar no ranking exportador. Todas as exportações das indústrias são feitas por Luziânia. Ainda têm boas indústrias, como a da Minuano [indústria de produtos de limpeza], todas em Luziânia. Cristalina também têm boas e importantes agroindústrias.

Valparaíso tem uma vocação comercial e de prestação de serviços. Ocorre que lá não áreas, é um município de apenas 62 km² — Luziânia, por exemplo, tem 3.604 km², veja que grande disparidade. A cidade já está estagnada, não tem mais espaço para crescer ou fazer qualquer tipo de investimento. Em Novo Gama têm problemas gravíssimos, assim como Santo Antônio do Descoberto e Águas Lindas; não têm uma vocação específica; vivem dos empregos em Brasília, assim como grande parte de Luziânia também. Para ter ideia, saem de ônibus do Jardim Ingá — ou saíam, ao menos, quando tínhamos os dados da Vian, que eram mais precisos, hoje já deve ter aumentado — aproximadamente 23 mil pessoas por dia, fora quem vai de carro. Ande pela rodovia em momento de pico para ver como é. Então, existe uma grande dependência do dinheiro que entra em Brasília, que é o que mantêm várias cidades do En­tor­no. Algumas, em específico, já têm vocação e se mantêm, são as que eu citei. O comércio de Valparaíso, hoje, é muito forte. A cidade tem indicadores muito positivos.

Euler de França Belém — Valparaíso, hoje, tem shopping.
Tem sim, além de grandes investimentos. E eu acredito que o corredor Brasília–Luziânia é de um crescimento irreversível. Estão previstos grandes investimentos para a região. Em Luziânia também haverá a construção de um grande shopping center.

Euler de França Belém — Quem está investindo nessa obra?
O grupo Bretas, com vários associados. Já investiram, só em terraplanagem, mais de R$ 5 milhões.

Euler de França Belém — E a questão do transporte? Como ficou a proposta de um trem para a região?
Essa história de se usar um trem já tem sido discutida há muito tempo. Eu acredito que precisamos ter algumas soluções. O trilho da Ferrovia Norte-Sul fica, mais ou menos, a 10 quilômetros de Luziânia. Teria de ser feito um ramal ou se inviabilizaria muita coisa. No Ingá, ele já atenderia em parte, pois passa mais perto. Para a Cidade Ocidental também não resolveria. Já para Valparaíso e Novo Gama seria uma solução. Mas eu acredito que devem ser feitas adequações, pois a bitola que existe hoje é de um trem lento, que não deve rodar a mais de 60 km/h. Essa discussão, portanto, precisa ser honesta e considerar os prós e contras. Existe também o projeto de estender o BRT de Santa Maria até Luziânia. Mas não tem dinheiro para isso, no momento.

Cezar Santos — E a ideia do chamado Trem Pequi, de Goiânia a Brasília? O governador Marconi esteve entusiasmado com isso, assim como Joaquim Roriz também. Como ficou essa ideia?
Reside na falta de dinheiro. O país vem há muito tempo desacelerando e, hoje, as perspectivas de investimento que temos é zero; a ideia é boa, não a do trem de alta velocidade, pois não casa com o percurso, mas de um trem rápido e de passageiros. Mas este sonho para o Brasil ainda vai demorar, pois o País cometeu um erro grave na década de 1960, quando priorizou o transporte rodoviário em detrimento do ferroviário. O país sucateou sua rede ferroviária e virou o que virou, enquanto os países europeus vêm cada vez mais investindo no transporte ferroviário. A coisa mais gostosa que existe na Europa é andar de trem. Não tem nada melhor.

Euler de França Belém — Eu fui de Madri a Barcelona. De fato, é maravilhoso.
Eu fiz o caminho inverso a 400 km/h, foi perfeito. Na Itália, andei todo o país de trem. Fui a Nápoles de trem e é a melhor coisa que existe na Europa. Mas o Brasil não entendeu isso.

Euler de França Belém — O sr. sabe a atual situação da “Fazendinha de JK”, a fazenda do ex-presidente Juscelino Kubistchek?
Está em estado de semiabandono. Tentei uma aproximação com a família que é dona da fazenda, por meio de Paulo Octávio, mas eles são pessoas complicadas, que pensam muito alto. Já houve propostas de compra, mas eles não querem vender a fazenda, querem vender a história. E história não tem preço. Estive lá e fiquei triste, pois a casa está cheia de rachaduras e o jardim projetado por Roberto Burle Marx [paisagista] abandonado, assim como a capelinha de Santa Júlia, projeto de Oscar Niemeyer.

Euler de França Belém — A fazenda do general Golbery do Couto e Silva [figura de proa de vários governos da ditadura militar] foi comprada por quem?
Aquela fazenda acabou. Inva­diram o local e quebraram tudo. E ali tinha muita história do período militar. Muita coisa foi decidida ali, por exemplo, a escolha de Ary Va­la­dão para o governo de Goiás, em 1979.

Euler de França Belém — O sr. é amigo de Júnior Friboi. Ele tem falado sobre algum projeto político?
Júnior tem falado apenas em negócios. Está focado em seus empreendimentos, inclusive um em Goiânia [como o polêmico Nexus Shopping & Business, a ser erguido no cruzamento das Avenidas D e 85, no Setor Marista]. Voltou para a área de frigoríficos e tem investido bastante nisso. Ele tem evitado falar de política e eu nem puxo esse assunto quando conversamos.

Euler de França Belém — O sr. tem conversado muito com o vice-governador José Eliton (PSDB). Ele é o candidato natural ao governo em 2018?
Sim. Ele é o candidato que o governador tem sinalizado e, por suas próprias ações, notamos que ele será o candidato do grupo. Se for, estaremos juntos. Vejo nele boas qualidades, pois é de fácil trato e tem um bom raciocínio. É atencioso. Será um bom candidato.

Euler de França Belém — O sr. foi presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que já teve um papel importante no Brasil, mas agora não mais. Por quê?
A Conab continua tentando exercer seu papel regulador. Porém, o órgão perdeu sua autonomia. Um desses ministros da Agricultura tirou completamente a autonomia da Conab, que passou a ser vinculada às ações da Secretaria de Política Agrícola (SPA) do ministério. Tudo o que a Conab vai fazer depende de uma autorização da SPA e isso amarrou muito a Conab. Falo por experiência própria. Quando fui presidente, tivemos a oportunidade de comprar milho barato. O preço em Mato Grosso estava, vamos supor, 8 reais a saca. Mas não houve autorização do ministério e, daí a pouco, o preço subiu para 19 reais.

E a Conab corre outro risco atualmente, pois também já não exerce seu papel de estoque estratégico, garantido pela própria Constituição. Seria necessário manter um porcentual de estoque da produção nacional. Atualmente, esse estoque deveria ser de 5 milhões de toneladas de milho; mas a Conab não tem 1 milhão. Ela teria de ter 1 milhão de toneladas de trigo, mais não deve ter 100 mil hoje. De arroz, deveria ter 2 milhões de toneladas e não deve ter 200 mil. Ou seja, a Conab perdeu seu protagonismo de exercer política reguladora e de estoque estratégico. Se o Brasil sofrer uma calamidade e precisar recorrer a seu estoque estratégico, não tem nada. Não foram feitos investimentos em armazenagem.

No período que estive à frente, consegui que o governo fizesse o Plano Nacional de Armazenamento, feito por minha diretoria. E o governo também destinou recursos para a iniciativa privada construir armazéns. O ideal, de acordo com a Organização Mundial de Comércio (OMC), é de que, para cada tonelada produzida, haja capacidade de armazenar 1,3 toneladas. O Brasil está em 1,68, isto é, muito aquém do necessário. Por que o Brasil não tem problemas mais graves de abastecimento? Porque nossa principal commodity, a soja, responde por 50% de nossa produção e ainda não teve problemas de exportação. O grande armazém brasileiro é o caminhão. Constantemente há soja dentro de caminhões indo embora. A partir do dia em que o mercado chinês, nosso principal comprador, tiver um colapso e nós tivermos de armazenar soja, vai ter de pôr no meio da rua. Não tem armazém.

Euler de França Belém — Até os ginásios de esporte já foram usados.
Todos. Enfim, a Conab perdeu o protagonismo, apesar de ser uma instituição com um know-how fantástico. O quadro técnico é de altíssima qualidade. O trabalho que a Conab faz em previsão de safra, por exemplo, é perfeito. A margem de erro de 0,5%, no máximo. E isso tudo está se perdendo, pela tutela que o ministério tem feito.

Marcos Nunes Carreiro — E o orçamento?
Não tem dinheiro para nada. Não se pode, por exemplo, comprar milho, pois, se não tiver o dinheiro empenhado para fazer o leilão, cai na Lei de Responsabilidade Fiscal. Mandamos para o Nordeste, em um ano e meio, 1,1 milhão toneladas de milho. Um número impressionante. Mas para ter dinheiro era uma briga todo dia.

Elder Dias — O sr. ficou à frente da Conab de 2011 a 2015, mas por um período se ausentou. Quem ficou em seu lugar?
Fiquei seis meses fora, pois poderia ter sido candidato a deputado federal nas eleições de 2014. Depois voltei, mas não ficou ninguém no meu lugar, dada a importância que estão dando ao órgão.

Euler de França Belém — Qual avaliação o sr. faz de Kátia Abreu à frente do Ministério da Agricultura?
Ela tem força política, mas não é da área, apesar de ter dirigido uma entidade como a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). Ela é muito teórica. Depois que ela entrou, o ministério tem sido gerido do jeito PT de ser: muita reunião para pouca decisão. O estilo dela não me agrada.

Euler de França Belém — A crise tem atingido alguns Estados de maneira muito forte, como Minas Gerais, que é muito mais rico que Goiás, mas terá agora de parcelar salários. Goiás, porém, tem sentido essa crise de uma maneira mais branda. O sr. atribui isso a um agronegócio forte ou às decisões do governo?
É uma combinação das duas coisas. O governador Marconi fez algo inteligente, desde que assumiu em 1999, algo que o PMDB não entendeu: ele puxou o segmento organizado para dialogar com ele. À época eu era deputado estadual e me lembro de que votávamos, todo dia, um repasse de recursos para um segmento diferente. Passaram a perceber o Estado como indutor. Além disso, Marconi manteve os incentivos que foram criados antes dele, até por Iris — o caso do Fomentar, de 1984. Marconi soube modernizar isso, fazendo com que o segmento empresarial sempre estivesse do seu lado. Isso facilita. Não se podem ter empresários em confronto constante com o governo, embora não se possa dar a eles tudo o que querem, senão o Estado quebra. Assim, os setores produtivos de Goiás foram diversificados.

Hoje, por exemplo, Goiás tem um bom polo industrial, embora ainda dependa bastante do setor agropecuário. E isso é bom, pois neste momento em que o mundo se retrai, o que não podem deixar de produzir é comida. Goiás tem um dos maiores rebanhos do País e uma das maiores produções agrícolas. Mas tem também alta produção industrial. Isso faz com que a crise não seja tão sentida aqui. Minas, que tem como principal setor produtivo o extrativismo, sofre com o baixo preço do ferro e com a retração do mercado chinês. Veja a Venezuela, que tem 93% de suas exportações baseadas no petróleo, produto que nunca teve um preço tão baixo no mundo.

Euler de França Belém — O sr. é a favor das OSs [organizações sociais] na educação?
Sou. O modelo de OS implantado na saúde não é ruim. Houve avanço. Então, acho que o Estado deve se tornar a cada dia menor.

Elder Dias — Não seria mais prático, em vez disso, que a gestão do Estado tivesse melhor qualidade?
O Estado deve se manter em áreas específicas e fazer mais parcerias com a iniciativa privada. No momento em que há recursos para uma OS administrar uma escola ou um hospital, os mecanismos de cobrança são muito melhores.

Elder Dias — Mas como fica isso, tendo em perspectiva a situação das OSs no Rio de Janeiro, em que gestores delas foram presos por desvio de recursos, tendo comprado fazendas, haras e apartamentos que valem milhões de reais?
Aí já é uma questão de gestão e fiscalização. Em todo lugar em que as coisas correm frouxas existe isso.

Cezar Santos — O sr. é novato no ninho tucano, mas chega com credenciais e história importante como político para avaliar o quadro do partido em Goiânia. O que o sr. pode dizer?
Tenho de ter certa cautela, mas creio que a base precisaria buscar o consenso. O governador vem perdendo eleições na capital, embora tenha boa popularidade, exatamente por não ter a união de sua base.

Cezar Santos — O que o sr. pensa da ideia de prévias?
Pelo que conheço de política, prévias são algo que já vem pronto.

Cezar Santos — Então o deputado e delegado Waldir Soares [pré-candidato a prefeito pelo partido] está certo?

Não coloque essas palavras em minha boca. (risos)

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